A passagem do bicentenário da independência,
a ser celebrado em 2022,
constitui excelente oportunidade para se
realizar um balanço historiográfico do
tema, discutir matrizes interpretativas e
rever autores clássicos que se dedicaram
ao seu estudo. Entre os clássicos, há que
destacar a contribuição de Manuel de
Oliveira Lima (1867-1928), sem sombra
de dúvida, o grande historiador da Independência
do Brasil.
Oliveira Lima abordou a problemática
da independência em vários livros de
sua vasta obra, numa perspectiva temporal
que hoje poderíamos qualificar de
longue durée, de longa duração, tal como
definiu Fernand Braudel. O historiador
pernambucano debruçou-se sobre o estudo
dos antecedentes mais notáveis do
processo emancipacionista e suas consequências
mais duradouras, num recorte
que atinge cerca de um século e meio.
A coletânea que o leitor tem em mãos
examina essa bibliografia deixada por
Lima. A versão original dos textos foi
apresentada no seminário Oliveira Lima
e a "longa" (História da) Independência,
realizado na Universidade de São Paulo,
na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin,
em setembro de 2019. Como se poderá
constatar, as análises ora publicadas
demonstram a atualidade das reflexões de
Dom Quixote Gordo, apelido que lhe deu
Gilberto Freyre. Mas não só. Revisitam o
autor que descreveu com maestria a sociedade brasileira e a portuguesa; desvendou
intrigas políticas e diplomáticas que permearam
o movimento da Independência
e o reconhecimento do Império; deixou
retratos definitivos de grandes personagens
da época, a começar por dom João
VI. Enfim, que soube traçar um magnífico
panorama das relações entre Brasil
e Portugal no século XIX, sobretudo no
período que vai de 1808 a 1834.